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Nomadland – Análise

Nomadland é um filme híbrido, com argumento e direção de Chloé Zhao (diretora chinesa a dar os seus primeiros passos na indústria, e conhecida pelos seus trabalhos em Songs My Brothers Taught Me e de The Rider, estando também indicada para dirigir o filme Eternals da Marvel). Esta longa-metragem, mistura o género documental com o de ficção, e é baseado no livro homônimo de Jessica Bruder.

Em Nomadland, podemos contar com um elenco muito peculiar, pois de entre as várias personagens que dão vida a esta aventura, são poucos os atores que a interpretam, assim sendo, é estrelada por Frances McDormand (atriz conceituada pelas suas interpretações Mississippi Burning, Almost Famous, North Country, Fargo, Three Billboards onde venceu o Óscar de melhor atriz), David Strathairn (ator reconhecido pelos sua actuação em Lovesick, L.A. Confidential, Trumbo, The Bourne Ultimatum, Lincoln, Godzilla, etc.), e Bob Wells (um ativista que tenta incentivar as pessoas a adoptar a vida minimalista e nómada, também conhecido no mundo do Youtube, em que demonstra como ser um nómada na vida quotidiana). Além destas pessoas de renome, este filme apresenta a participação de diversos nómadas, que se representaram a si próprios tal como são, tais como Linda May, Charlene Swankie, Patricia Grier (Patty), entre outros.

Este drama, tendo já sido premiado, nos festivais de cinema de Veneza e Toronto, 77º edição do festival de cinema internacional de Veneza, e Festival Internacional de Cinema de Toronto (Toronto International Film Festival – TIFF) respetivamente. Sendo distribuído pelo estúdio da Searchlight Pictures, e com produção de Frances McDormand e Peter Spears.

A Aventura…

Esta história é baseada num evento real, o encerramento em 2011 das instalações da US Gypsum Empire, devido à redução na procura de gesso cartonado. Como tal, seguimos este filme na perspetiva da protagonista, Fern (Frances McDormand), que viveu, quase toda a sua vida, com o seu falecido marido Bo, que trabalhava nessa empresa, e como tal, viviam numa das habitações cedidas por estes aos seus funcionários.

Esta jornada inicia-se com Fern, a selecionar apenas alguns dos pertences da sua “antiga” vida. Pois, desde este momento, percebe-se que esta mulher, após a morte do marido, não queria por nada se desapegar do seu lar, e querendo viver sempre perto deste, daí manter todas as suas coisas de família e de valor sentimental numa garagem, antes de partir na sua nova aventura, ou seja, morar na sua carrinha.

Com o avançar do tempo, Fern tenta encontrar sítios onde possa estacionar a sua carrinha, e assim passar a noite nela, contudo o mais complicado acaba por ser arranjar trabalho, pois tem de andar ao “sabor do vento”, inicialmente a protagonista consegue um emprego por alguns meses na Amazon, e consegue assim se sustentar e adaptar a carrinha (melhorar alguns móveis interiores para conseguir mais espaço e aproveitar melhor o mesmo) com o que recebe.

Pois tal como é referido por Fern, esta é uma “sem casa”, não uma sem-abrigo, pois apenas não tem uma casa com os mesmo contornos a que as pessoas estão habituadas. Fern explica isto, a uma das suas ex-alunas (pois dá-nos a entender que a protagonista foi professora no passado), que encontra enquanto está a fazer compras.

Durante o tempo que trabalha para a Amazon, ela cria laços de amizade com uma colega mais velha, Linda May (interpretada pela própria). Linda, conta a Fern que perdeu o seu trabalho em 2008, por ser “velha demais”, tendo apenas direito a um parco apoio da Assistência Social após uma vida de trabalho. Esta situação fez com que Linda sentisse um desespero emocional e económico após este evento em 2008, pois sentia-se com capacidade de trabalhar (como é referido por a mesma, apenas quer trabalhar, enquanto os mais novos não querem, mas, por causa da idade, já não tem valor).

Como não conseguia arranjar um trabalho estável, por causa da sua idade e a sua reforma não lhe permitia viver com dignidade, por isso a solução encontrada por ela foi viver na sua carrinha e ir arranjando trabalhos temporários.

Quando termina a sua temporada como empregada da Amazon, Fern começa a planear o próximo passo, neste momento e numa troca de ideias com a sua nova amiga, Linda convida a protagonista para ir com ela, a um grande encontro de nómadas no Arizona, que é organizado pelo carismático e empático Bob Wells (também interpretando a si mesmo). No entanto Fern, numa primeira fase recusa o convite, pois apenas pensa num trabalho perto das antigas instalações da Empire, contudo, é algo que não corre como o esperado, o que faz Fern mudar de ideias e se aventurar novamente pelas estradas americanas.

Durante todo este caminho, são nos dado planos e paisagens fenomenais o que também embelezam a vista de Fern. Ao chegar ao acampamento encontra Linda, e as duas ficam a ouvir a palestra de Bob sobre o incentivo à vida minimalista e o que é ser nómada.

Neste evento, a nossa protagonista conhece uma mulher chamada Swankie (interpretada pela própria), que tal como toda a gente que ali está, já teve uma vida passada com família reunida, numa casa comum. Neste convívio dos nómadas, é realizada uma espécie de feira, em que não existe uma compra e venda direta de artigos, mas sim uma troca, algo que Bob dá valor e incentiva.

Durante a sua estadia no Arizona, Fern também cria laços com um homem chamado Dave (David Strathairn), que mantém uma postura elegante, acabando por se aproximar mais carinhosamente dela, este também mostra à protagonista que naquele local existem bons sítios de trabalho, nem que seja na compra e venda de pedras.

Apesar da convenção ter terminado, apenas Fern e Swankie ficam naquele espaço, e aproveitam para se conhecer melhor. Swankie explica a Fern que deve ter sempre muita estima pela sua carrinha, pois mais do que um veículo, é a sua casa, e assim sendo, é um lugar seguro e só dela. Durante estas conversas, Swankie confidencia que esta é a sua “última viagem”, pois ela quer fazer apenas mais uma viagem até ao Alasca e ficar por lá ao “sabor” das maravilhas da natureza, algo que o seu marido lhe prometera.

Ao longo da história, vão surgindo oportunidades a Fern para ter uma vida “normal”, no entanto, esta opta sempre por voltar para à estrada, pois somente na solidão, ela pode permanecer imersa nas suas memórias, nos seus sentimentos e nos detalhes da sua vida com Bo, acima de tudo, manter a sua vida independente.

Contudo, estas decisões de Fern devem ter em conta todas as consequências, pois ao viver num veículo, toda a sua vida vai depender um pouco do estado deste. E sendo uma carrinha antiga, Fern sabe que isto pode não ser uma solução duradoura e confiável, pois observamos Fern a chegar ao final do ano, e a iniciar toda a repetição dos trabalhos do ano transato, porém surge algo que Fern não esperava o que a leva a recorrer à ajuda da sua irmã Dolly (Mlissa Smith).

Dolly, deixa o seu ponto de vista bem claro, pois não aceita a situação de Fern e do seu estilo de vida de nomadismo. Dolly, ao contrário, vive numa casa elegante suburbana, em que esta acusa a sua irmã mais velha de ser excêntrica e inconsequente, no entanto, a protagonista considera que o seu estilo de vida é um impulso feroz e declarado de independência.

Nomadland mostra as necessidades que os nómadas passam, assim como a rejeição da sociedade para com estes.

Nómada…

Nomadland, apresenta uma narrativa, que é formada por histórias breves (mas, comoventes e cheias de dor), que contribuem para o seu desenvolvimento, explicando sem dar ou detalhar quais são os traumas ou dificuldades, que os diversos personagens tiveram para escolher uma vida nómada, não existindo nenhuma conversa sem propósito, contudo estas são demasiado naturais.

A história do filme, remete-nos aos anos de 2011 e 2012, mas com o pano de fundo da crise financeira de 2008, no entanto, este negligencia alguns aspetos básicos da vida dos nómadas, que seria enriquecedor para o público compreender e saber melhor sobre eles, tais como: como eles votam, se pagam impostos, como fazem em caso de doença tendo em consideração o sistema nacional de saúde americano (por exemplo, algumas situações que Fern vive com outras personagens).

Em termos de interpretações, é de destacar que Nomadland, apresenta um elenco que na sua maioria são representados pelos próprios nómadas, ou seja, atores não profissionais, e pessoas que na verdade vivem como “nómadas”, por isso muitos deles apenas têm um diálogo limitado, consistindo em frases curtas com efeito informativo ou reflexões espirituais relativamente à jornada de Fern. Para garantir um maior equilíbrio, os atores que interpretam Fern e David também tendem a falar em frases curtas (que por vezes aparentam ser piadas).

As representações de Swankie e de Bob são as que conseguem manter o aspeto mais notável do filme e da sua visão quase documental, relativamente aos laços cívicos e afetivos que se criam entre as pessoas que, por viverem e viajarem nas suas carrinhas, não estão necessariamente isoladas, dando um suporte fenomenal à personagem de Fern.

Ainda se destaca de forma soberba a interpretação de Frances McDormand, que no meio dos nómadas que conviveu durante esta longa-metragem, passava facilmente como um deles, pois cena após cena, é pontuada e coroada por frases breves e com um olhar envolvente que consegue transmitir, por vezes sem palavras, o que vai na mente da sua personagem, atraindo o público para a sua jornada. No entanto, a interpretação de David Strathairn, é sempre abafada quando contracena com Frances, e mesmo em comparação às representações de Swankie e Bob, fica um pouco aquém do esperado.

Sem dúvida, e involuntariamente, Nomadland é um filme nascido do problema da classe trabalhadora da América, onde a mesma é exaltada, pois são referidas pessoas que foram levadas ao limite da exaustão devido ao trabalho, e quando se aposentaram, estavam “podres” e não conseguiram usufruir das suas reformas. Temos o caso de Linda May, que tinha ainda capacidades para continuar a trabalhar, mas o sistema forçou-a a retirar-se, e acabou por ser colocada de lado pela sociedade por ser “velha demais”. Mas, é na interpretação de Frances e na sua personagem Fern, que observamos que esta conhece estes mundos, e que apenas quer viver da melhor forma possível e aproveitar a vida ao máximo, sendo o trabalho apenas um extra para garantir e satisfazer algumas das suas necessidades.

O trabalho de direção de Chloé Zhao é majestoso, apresentando-nos planos de paisagens em Nomadland, que não são “bonitas”, mas, pitorescas e escuras, mostrando uma realidade crua. Prova-nos que com um argumento simples, construiu de uma forma tão bem executada uma longa-metragem, que praticamente não existem pontos negativos a apontar, tornando esta obra no limiar da perfeição (pois por vezes o simples toda a gente consegue fazer, mas, fazê-lo bem não é de certeza para todos). Todo este trabalho, é acompanhado por uma banda sonora e sonografia, que envolvem mais os espetadores no enredo desta longa-metragem. A estética das imagens se confunde com a melancolia da nostalgia sentida pela personagem principal.

Em suma, Nomadland, é um filme que surpreende por ter uma história simples e narrada com facilidade durante 2h, onde a personagem Fern (Frances McDormand, que se apresenta como elemento fulcral), revela-nos uma história que é o fecho de um capítulo de luto pelo seu marido, assim como alguns dos atores não profissionais, dão vida a este título. No entanto, a interpretação dos outros atores reconhecidos, ficou um pouco aquém das expetativas. A direção, acaba por tentar demonstrar algumas das dificuldades dos nómadas, num estilo documental, no entanto, esquecendo-se de alguns detalhes que poderiam enaltecer a história. Com isto, não é uma surpresa que este título tenha ganho vários prémios em diversas categorias e também apresenta-se como um dos favoritos para os Óscares.

E com este início de desconfinamento, e com as aberturas das salas de cinema (tendo estreado esta longa-metragem ontem), aproveito para dizer que Nomadland, é um filme que merece ser visto e apreciado por todos.

Partilhamos, convosco o trailer deste drama…

8.0
Score

Pros

  • Simples, mas roça a perfeição
  • Cinematografia e Edição
  • Interpretação de Frances McDormand
  • Interpretação de Bob e Swankie
  • Narrativa apelativa

Cons

  • Interpretação de David Strathairn
  • Negligencia alguns aspetos básicos da vida dos nómadas

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