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Análises, Cinema

Pinocchio – Análise

Mesmo sendo ameaçadores, sinistros, brutais e grotescos, os contos de fadas sempre foram apelativos para as crianças e suas famílias. Pinocchio, é um dos contos infantis mais famosos de todos os tempos, que conta as aventuras de um boneco de madeira falante. Sendo que quase todos conhecem a adaptação da Disney de 1940.
Passado 18 anos da última versão desta aventura em live-action e 8 anos da animada, chega agora aos cinemas uma nova adaptação, realizada por Matteo Garrone (um reconhecido e premiado realizador italiano, tendo produzido Gomorrah, Reality, entre outros). Esta nova adaptação, é baseada na estória original de 1880 do escritor Carlo Collodi, The Adventures of Pinocchio (por isso não estejam à espera de algo muito semelhante à versão Disney).
Esta longa-metragem, conta com um elenco maioritariamente italiano, incluindo o ator Roberto Benigni (um extraordinário ator com várias nomeações e premiações, tendo ganho um Óscar de melhor ator pela sua interpretação no La vita è bella. Uma curiosidade à parte, é que Roberto Benigni volta a participar numa adaptação de Pinocchio, interpretando desta vez mestre Geppetto, sendo que na versão de 2002 interpretou o próprio Pinocchio), Federico Ielapi (um jovem ator que está a dar os primeiros passos nesta indústria), Rocco Papaleo, Massimo Ceccherini, Marine Vacth (uma atriz e modelo francesa), entre outros atores.

O Tronco Mágico…

Esta aventura inicia com um pobre carpinteiro, Geppetto (Robert Benigni), na sua humilde casa desesperado a tentar encontrar algo para petiscar, pois não tem nem um tostão para comer. Então de uma forma obstinada tenta arranjar algum trabalho (por pequeno que seja) numa pequena e pitoresca aldeia italiana, com cenários fantásticos e com um elenco exímio vestido a rigor, de forma a fazer-nos imergir neste mundo. Mas ao caminhar pelas ruas, fica fascinado com o espetáculo de marionetas de madeira que está a chegar à aldeia, desta forma, decide obter um pedaço de madeira para esculpir a sua própria.
Por isso Geppetto vai ter com o mestre Ciliegia (Paolo Graziosi) para que este lhe dê um pouco de madeira, mas o lenhador encontra-se prostrado no chão e apavorado com um tronco de madeira (que é “mágico”) que parece ter vida própria, e decide oferecê-lo a Geppetto para se “ver livre” do mesmo.
O mestre carpinteiro, nessa mesma noite põe as mãos ao trabalho, esculpindo o mais belo boneco de madeira. Tendo parte da sua obra concluída, é com espanto que ouve um bater de coração proveniente do tronco, então apressa-se a fazer os olhos e a boca, de forma a tentar interagir com a sua criação, Pinocchio (nome que lhe deu).

Após a primeira palavra de Pinocchio (Federico Ielapi), “Pai”. Geppetto termina-o seu o mais rápido possível (realizando assim o seu sonho de ser pai). Mas este prazer depressa desaparece, pois Pinocchio sendo um pequeno “recém-nascido” no mundo e sem consciência, sai de casa a correr livremente. Quando regressa encontra o Grilo Falante (Davide Marotta), a primeira personificação da sua consciência, que lhe tenta mostrar que existe o bem e o mal, e sair assim de casa sem a permissão de Geppetto é errado.
Passado alguns dias, Geppetto decide inscrever o seu filho na escola, para que este aprenda a ler e a escrever. No entanto, Pinocchio, sendo demasiado impulsivo, preguiçoso e influenciável, ao avistar o espetáculo das marionetas, foge da escola para ir vê-lo, vendendo o caderno que o seu pai lhe ofereceu (com sacrifício, mas com muito gosto) para ter dinheiro para a entrada.
Entusiasmado no espetáculo, todos se apercebem que Pinocchio também é um boneco de madeira, no entanto ao contrário dos outros ele não tem fios de manipulação. Mas por de trás dos bonecos, existe um homem maldoso, o Mangiafuco (Gigi Proietti). No entanto, é com este homem que o pequeno Pinocchio aprende o que é a compaixão, pois este liberta-o e dá-lhe 5 moedas de ouro, tendo ficado sensibilizado com a sua história e do seu pai, por estes serem muito pobres.

Durante o caminho de regresso a casa, o menino de madeira encontra dois seres, a Raposa (Massimo Ceccherini) e o Gato (Rocco Papaleo), duas personificações do mal (e também da sua consciência), que mentem, enganam e roubam as pessoas. Estes iludem Pinocchio a levar as suas moedas ao campo dos milagres, para plantá-las e assim, multiplicá-las para ficar rico. Assim, podemos facilmente perceber (como se de uma metáfora se tratasse), que todos os seres que se apresentam como uma mistura entre humano e animal, são uma personificação dos traços de personalidade em desenvolvimento de Pinocchio (fazendo parte parte da criação da sua consciência).
No meio desta aventura, Pinocchio conhece um bela menina, Fatina (Alida Baldari Calabria) e a sua empregada Lumaca (Maria Pia Timo), que o ajudam a perceber o que é o medo e a morte, mas também que mentir é errado. Pois de uma forma mágica, Pinocchio ao mentir em frente a Fatina o seu nariz cresce, apenas parando quando este diz a verdade.
De regresso a casa, e depois de ter sido roubado pela Raposa e o Gato, descobre que Geppetto (desesperado) tinha ido à sua procura, nem que tivesse de atravessar os mares. Pinocchio angustiado vai procurar o seu pai, aventurando-se pelo mundo.
Ao longo desta procura pelo seu pai, reencontra velhos conhecidos. Como por exemplo, a Fata (ou a Fatina adulta, conhecida por muitos como fada azul, interpretada por Marine Vacth), que incita o pequeno rapaz de madeira voltar à escola, para que este se torne bom aluno, que se porte bem e seja corajoso, para conseguir tornar-se num menino de verdade. No entanto, este encontra novas personagens, que o ajudam a consolidar mais alguns dos seus traços de personalidade, tais como, a desobediência, impulsividade, tornando cada vez difícil de cumprir a tarefa que Fata lhe deu. Mas, apesar das maldades que faz, Pinocchio consegue provar também tem um bom coração e que é corajoso.

O Menino de verdade…

Esta versão de Pinocchio, apesar de ser nova, não perde a ideia básica dos seus valores morais, destacando a ingenuidade infantil, em relação às ameaças do mundo real. Mais uma vez, o filme é uma lição para os espectadores mais jovens manterem uma desconfiança saudável, em relação a estranhos e questionar os motivos de supostos amigos. Para além disso, também reflete bem a construção da consciência do menino de madeira, ao longo dos encontros com as outras personagens, que são a personificação das suas características de personalidade.
Destaca-se, muito pela positiva, a caraterização das personagens, apostando fortemente na maquilhagem e prostéticos, evitando assim o CGI (com exceções), obtendo um resultado extraordinário a este nível, sendo ainda mais notável nos trabalhos do rosto de madeira (e no envelhecimento desta) do Pinocchio e da empregada Lumaca.
O filme também apresenta uma fantástica ilustração de cenários, apresentando uma visão de fantasia marcada com cores vibrantes, mas também todo o lado sombrio, cheio das complexidades e fragilidades, muito próprias da natureza humana, que nos enquadram neste mundo de magia. Toda esta cinematografia, é acompanhada por um belíssima banda sonora, especialmente nos momentos mais emocionais.
A duração de filme é um pouco desadequada para a estória em questão, sendo demasiado longa, pois tenta adaptar de forma muito completa o livro. Devido a isso, existem cenas que se tornam desnecessárias no decorrer do filme, pois praticamente nada acrescentam à narrativa, e essas cenas levam a personagens sem impacto (tais como, o Giudice). No entanto, compreendemos a importância e o impacto, que personagens como a Raposa, o Gato e a Fata têm neste enredo. Ao nível da interpretação de personagens, de modo geral são competentes, contudo, seria de se esperar mais de um ator como Roberto Benigni. Outros atores não passaram devidamente os sentimentos vividos pelas personagens, o que nos leva, por vezes a perdemos o sentido das mesmas ou a ficarmos confusos com as suas ações.
Outro dos aspectos menos positivos, é o tão conhecido crescer do nariz quando Pinocchio mente, que é mencionado brevemente, sendo apenas usado para criar um alívio cómico, não ocorrendo mais noutras ocasiões em que a personagem falta com a verdade. Isto traz à tona algumas das inconsistências existentes neste filme de fantasia.
Em suma, a versão cinematográfica italiana de Matteo Garrone de Pinocchio, apresenta um cenário realista a nível dos cenários e da caraterização das personagens, no entanto perde um pouco da sagacidade, coerência e magia do livro.

Partilhamos, convosco o trailer deste conto de fadas aventureiro…

6.0
Score

Pros

  • Caracterização das personagens (especialmente Pinocchio e Lumaca)
  • Cenários bem ilustrados
  • Banda sonora

Cons

  • Articulação da narrativa / Ligação da narrativa
  • Edição do filme
  • Duração do filme
  • Existem cenas desnecessárias e sem contexto...
  • ...o que leva a personagens sem impacto

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