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tick, tick…BOOM! (Netflix) – Análise

tick, tick … Boom! é um drama musical biográfico dirigido por Lin-Manuel Miranda (que faz aqui a sua estreia na direção. Ele é um ator, rapper, compositor, dramaturgo, cantor, produtor e letrista norte-americano de origem porto-riquenha mais conhecido por escrever e estrelar os musicais Hamilton e In The Heights. Recentemente também fez a sua estreia na direção de animação com o filme Encanto) a partir de um argumento de Steven Levenson (dramaturgo e escritor de televisão americano, galardoado com um Tony de 2017 de Melhor Livro de Musical, Dear Evan Hansen), baseado no musical teatral e autobiográfico, homónimo de Jonathan Larson (compositor e escritor americano conhecido por abordar nos seus trabalhos questões sociais pertinentes, tais como homossexualidade, toxicodependência, HIV entre outros. Recebeu 3 Tony Awards e 1 Prémio Pulitzer de Teatro póstumos).

O filme é estrelado por Andrew Garfield (reconhecido ator anglo americano, mais conhecido como o Peter Parker do reboot do franchise Spider-Man, The Amazing Spider-Man e The Amazing Spider-Man 2. Participou também em Hacksaw Ridge, que lhe valeu a nomeação ao Óscar de melhor ator, integra também o elenco de 99 Homes, Silence, Breathe, Under the Silver Lake, entre outros), Robin de Jesús (ator americano de ascendência porto-riquenha, mais conhecido pelos seus trabalhos no teatro, tais como In the Heights, La Cage aux Folles e The Boys in the Band. Um pequeno detalhe, Robin participou também numa peça teatral da broadway em 2005, Rent que tinha sido estruturada por Jonathan Larson), Alexandra Shipp (atriz e cantora norte-americana mais conhecida pela sua interpretação da cantora Aaliyah, no filme biográfico Aaliyah: The Princess of R&B, ou Storm, em X-Men: Apocalypse e mais recentemente em X-Men: Dark Phoenix), Joshua Henry (ator e cantor americano-canadense, mais conhecido pelos seus trabalhos em musicais, tais como The Scottsboro Boys, pelo qual recebeu uma indicação a um Tony, e Hamilton), Vanessa Hudgens (atriz, cantora, americana, famosa por interpretar Gabriella Montez na franquia High School Musical), Judith Light (veterana atriz norte-americana conhecida especialmente pelos seus trabalhos em televisão, tais como One Life to Live, Phenom, Law & Order: Special Victims Unit, Ugly Betty. Deu também a voz num episódio de Cow and Chicken e em longas-metragem como por exemplo: Scrooge & Marley, Before You Know It ou oferecendo a sua voz em Joseph: King of Dreams, etc.), entre outros.

tick, tick…

tick, tick … Boom! é um filme do género musical, contemplando o drama biográfico sobre Jonathan Larson (Andrew Garfield), numa pequena apresentação, Jon refere quem é e o que trás, para os que o seguem. Mas, ainda neste enquadramento, ouvimos de fundo uma voz feminina que nos diz: “Tudo o que estás prestes a ver é verdade, exceto as partes que Jonathan inventou”.

Jon, é um empregado de mesa num restaurante em Nova York em 1990, mas mais do que isso, era um jovem sonhador, e que desejava ter o seu nome no mundo da Broadway. O protagonista, prestes a fazer 30 anos, só pensava em ser um compositor de teatro, por isso sempre que tinha tempo escrevia o que ele almejava ser o próximo grande musical americano, Superbia. Todos os que o rodeiam dizem que falta algo nesta peça, uma música e isso revela-se um grande desafio para Jon.

Quando estas pequenas vivências nos são reveladas, somos acompanhados ao som de “30/90”, uma das grandes composições de Jon, que se mostra a cantar num espetáculo enquanto revive alguns dos seus momentos passados.

Numa primeira introdução, pode parecer algo estranho, mas com o avançar do filme, esta apresentação da narrativa é muito cativante e apelativa, pois sendo um espetáculo de momentos passados de Jon, eles vão nos sendo mostrados e vividos ao ritmo do avanço do show.

Jon, tem inúmeras tentativas de se integrar no Mundo da Broadway, mas parece que este não o valoriza, que o seu talento passa ao lado e nem se apercebem do “diamante” que ali está, talvez por não se enquadrar nos padrões comuns dessa realidade.

Por ser mesmo diferente, é que Jon tenta se mostrar de várias formas e as histórias que conta, não são apenas estórias, mas histórias sobre os que lhe estão mais perto. Com o passar do tempo Jon cada vez sacrifica mais e mais… o tempo, os amigos, momentos de prazer, tornando-se cada vez mais solitário e deprimido.

O nosso protagonista vê os amigos a rumarem por outros caminhos. Michael (Robin de Jesús), um dos melhores amigos de Jon, desiste do Mundo artístico, pois está a ficar velho e não é “um fora de série” para continuar a tentar. O peso da idade é algo que afeta negativamente Jon, pois sente que com quase 30 anos ainda não alcançou nada e que está na reta final da sua vida.

Por tudo isso, nos momentos finais do “show“, ou seja, dias antes de apresentar seu trabalho, Jon sente-se sufocado pela pressão de todos: da sua namorada Susan (Alexandra Shipp), que sonha com uma vida artística fora de Nova York; do seu amigo Michael, que abandonou o seu sonho para garantir uma a sua segurança financeira; dos seus amigos que estão a morrer e a ser contagiados com HIV, antes de completar os 30 anos, culminando tudo numa epifania de desejo, ambição e descoberta, que o leva a criar a sua apresentação e uma das músicas mais icónicas “Come To Your Senses”.

Após a sua apresentação, e sem uma chegada de resposta, o tempo passa, tick, tick…..e com o passar do tempo e todas dificuldades que surgem, dia após dia, Jon pensa em desistir e questiona-se “o que devemos fazer com o tempo que nos resta?”

Boom!…

tick, tick…Boom!, baseado no musical semi-autobiográfico do mesmo nome, este conta a vida de Larson, antes do seu grande sucesso musical Rent. O trabalho de direção de Miranda é exímio, demonstrando conhecer bem este título, que ele poderia facilmente ter protagonizado, visto que ele atuou numa produção limitada de tick, tick … Boom! em 2013. O formato que Lin, decidiu levar esta narrativa é soberba, fazendo ligar facilmente a Jon, e perceber todos os seus pontos, vivências, sentimentos e escolhas.

Mas talvez por isso, tenha decidido baixar toda a carga emocional desta longa-metragem, pois apresenta-se como algo muito superficial, sendo apenas uma narrativa do espetáculo, não tratando diretamente os temas que Jonathan Larson tanto gostava de abordar.

A nível de interpretações, de forma geral o elenco é brilhante, existindo um enorme destaque para a interpretação Andrew Garfield, que é sublime, pois ele brilha ao longo do filme, transmitindo com entusiasmo a paixão de Larson pelos musicais. A seu par, existem duas interpretações magníficas, uma na vertente mais musical e outra interpretativa, sendo elas Vanessa Hudgens (que interpreta a sua amiga Karessa Johnson, sendo bastante icónico o momento que juntamente com Andrew interpretam “Therapy”) e Judith Light (que interpreta a sua agente Rosa) respetivamente. O restante elenco não fica atrás, especialmente nos momentos emocionais e musicais, tais como Alexandra Shipp e Robin de Jesús.

A cinematografia e planos utilizados, remetem-nos facilmente para os finais dos anos 80 e inícios dos anos 90, onde tudo brilha, e além disso, é no foco de Jon num ambiente confuso como é o seu quarto, ou no meio de um parque gigante que nos são apresentados os sentimentos por este vividos, sem ser necessário expressar um única palavra. Mas para além da cinematografia, a iluminação assenta como uma luva nesta longa-metragem, pois é com base em tudo isto que nos é mostrado o Mundo teatral, assim como a moda, as músicas que começam a surgir nessa década, e que tornaram-se um marco influente na época.

Este filme tem todos os ingredientes para ser especial, contudo, a narrativa e os diálogos deveriam ser mais profundos, especialmente quando são abordadas as diferentes questões sociais. Esta longa-metragem teria beneficiado se toda a história e música se concentrasse em Jon (“escreve o que conheces”) e nas temáticas que este gostava tanto de divulgar nos seus trabalhos (“é uma tragédia se perderes o que tens”).

Tal como mencionado anteriormente, não é um musical comum, onde a partir de uma cena sai a música, mas sim, dentro da música sai a cena/narrativa. E Lin, apresenta tick, tick…Boom! propositadamente de uma forma diferente, mostrando que tudo está a ser montado/construído, o show, a música, a direção do show, e depois todas as ideias e convicções de Jon são “desmontadas/desconstruídas”, como um paralelismo brilhante, magnífico e grandioso. Sendo que todo o filme é a cara de Jon, inquieto e “confuso”, a confusão dentro da cabeça de um génio.

Em suma, tick, tick…Boom! é um musical majestoso, interessante e belíssimo, especialmente para quem gosta deste género e esteja disposto a ver a jornada de Jonathan Larson, antes de ter escrito a sua famosa peça Rent, por duas horas. A performance de Andrew Garfield é única (sem dúvidas espero vê-lo nomeado a melhor Ator do ano), mesmo nos momentos musicais. Porém, a narrativa e nos diálogos possuem um tom ingénuo e por vezes superficial, quando são abordadas questões sociais, como o HIV e a perda das pessoas que nos são queridas. A adaptação de Miranda do musical de Larson é uma homenagem comovente e brilhantemente executada a uma lenda que morreu antes que o seu verdadeiro génio fosse devidamente apreciado.

Partilhamos, convosco o trailer deste musical de Lin-Manuel Miranda sobre a lenda de Jonathan Larson

8.0
Score

Pros

  • Direção de Lin-Manuel Miranda
  • Interpretação de Andrew Garfield, que é única brilhante
  • Interpretações magníficas de Vanessa Hudgens e Judith Light
  • Cinematografia e Iluminação
  • Banda sonora bem enquadrada no filme
  • Formato deste musical, está bem relacionado com o génio de Jonathan Larson

Cons

  • Temas abordados de forma superficial
  • O formato pode ser confuso para alguns

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