Análises, Cinema

The Lone Wolf (O Lobo Solitário – curta) – Análise

O Lobo Solitário ou The Lone Wolf, é uma curta-metragem realizada, escrita e dirigida por Filipe Melo (autor e compositor português mais conhecido pelo seu trabalho em Sleepwalk, Um Mundo Catita e também com a participação em Uma Nêspera no Cu), produzida pela Força de Produção e o apoio do Instituto do Cinema e do Audiovisual, que tem chamado a atenção do público e da crítica, tendo ganho diversos prémios até à data, e é o terceiro filme português a chegar à última shortlist antes das nomeações para os Óscares. Destaca-se que as nomeações para a 95.ª edição desta premiação serão conhecidas no dia 24 de janeiro e que a cerimónia será realizada a 12 de março.

Está curta-metragem possui no elenco atores reconhecidos, tais como Adriano Luz (actor, encenador e realizador português, com uma longa carreira, sendo mais conhecido pelo seu trabalho nos filmes O Filme do Bruno Aleixo, John From, Os Maias, Yvone Kane, Linhas de Wellington, Mistérios de Lisboa, Coisa Ruim, Camarate, Filha da Mãe, etc.), António Fonseca (ator português mais conhecido pelos seus trabalhos nos filmes Terra Brava, A Vida Invisível, Florbela, entre outros), Maria João Pinho (atriz portuguesa que participou nos filmes Ruth, Os Maias, A Vida Invisível, A Vida Privada de Salazar, entre outros), Ana Cloe (atriz portuguesa mais conhecida pelos seus papéis em séries nacionais, tais como Quero é Viver, Para Sempre, Desliga a Televisão, Floribella, etc.), Márcia Breia (atriz portuguesa com uma longa carreira no teatro, televisão e cinema, tendo participado nos filmes Se Eu Fosse Ladrão, Roubava, A Mulher que Acreditava Ser a Presidente dos EUA, O Delfim, Sapatos Pretos, Rosa Negra, La Plage Noire, Nem Pássaro Nem Peixe, etc.), Custódia Gallego (atriz portuguesa reconhecida pelos seus trabalhos no teatro, televisão, cinema, destacando-se os seus trabalhos nos filmes Adão e Eva, O Fascínio, Call Girl, A Corte do Norte, Pedro e Inês, etc.), Beatriz Batarda (atriz portuguesa com uma longa carreira cinematográfica, tendo participado nos filmes Colo, São Jorge, Yvone Kane, Sangue do Meu Sangue, Alice, Noite Escura, Quaresma, entre outros), Miguel Faustino (ator português conhecido pelo seu trabalho em A Mim, Nunca, Linha, PRISMA etc.), entre outros.

Viva FM…

Esta curta-metragem inicia com a chegada do radialista Vítor Lobo (Adriano Luz) à rádio Viva FM, uma rádio local, em que ele é bastante acarinhado por todos, inclusive pelas pessoas que ouvem o seu programa noturno. Sandra (Maria João Pinho), que trabalha com ele, avisa-o que está atrasado, e além disso tem para ele o seu correio, algo recorrente para este locutor, que antes de entrar para a sua cabine para realizar o seu programa da madrugada recebe (ou tem à sua espera) correio enviado pelos seus fãs, neste dia várias cartas e uma caixa.

No seu programa noturno, Vítor decide fazer um programa dedicado às emoções, abriu-se para o seu público, para que estes possam partilhar com todos os seus sentimentos, emoções e assim falando um pouco das suas experiências.

O programa inicia calmamente, sendo Maria de Lurdes (Ana Cloe) a primeira participante uma fiel ouvinte do Lobo Solitário, apesar de ter uma conversa extremamente longa, Vítor assim que consegue, deixa uma questão a esta participante e é algo que acaba por ficar no ar, “Consegue controlar alguma emoção?”, contudo, Maria de Lurdes acaba por divagar muito na sua conversa, e não chega a conclusão nenhuma. O locutor mantém-se ativo noite dentro para animar não só os seus ouvintes fiéis, mas também aqueles que seguem viagem e possam estar na companhia da Viva FM, para aqueles que estejam em casa, pois o programa também decorre em live pela internet.

O programa segue com ouvintes fiéis a participar, até que surge uma chamada de uma pessoa do passado de Vítor. Sendo um programa dedicado a emoções, desperta-se logo uns sentimentos e um clima de nostalgia entre Vítor e este seu grande amigo de longa data, Raúl (António Fonseca). A conversa começa de forma tranquila, falando do passado, viagens e férias passadas em conjunto, e que o tempo e as adversidades da vida acabaram por separar estes dois amigos.

Mas toda esta conversa nostálgica, não apenas se foca nesta emoção ou sentimento, pois segue-se um turbilhão de emoções assim que ambos começam a falar da família, porém esta mudança de direção, leva a que este “amigo” do passado a demonstrar uma série sentimentos e emoções negativas, que acabam por afetar Vítor e todo o seu estado de espírito em pleno programa, algo que o leva a parar a chamada a meio.

No entanto, Vítor ficou tão abalado, que assim que admite a próxima chamada, não reconhece com quem está a falar, algo inédito em Vítor com os seus fiéis ouvintes. Após toda a conversa e exposição de Raúl, os ouvintes começam a partilhar as suas opiniões online, existindo assim quase que um “motim” na internet, algo que juntamente a umas medidas mais drásticas que Raúl decide tomar, levam o locutor a voltar a entrar no ar, em chamada com o seu “velho amigo”, acabam por quebrar por completo qualquer tipo de sentimento ou emoção que Vítor estivesse a tentar controlar.

Um dia de rádio, em que o programa em destaque é o Lobo Solitário, neste dia focado no tema emoções e sentimentos, em que tudo desperta e se desmorona após uma chamada de um velho amigo, mas como será que este drama emocional irá terminar?
Recomendo que para quem gosta de cinema, que dê uma oportunidade a esta curta-metragem, sendo uma obra nacional e estando às portas de entrar nos nomeados dos Óscares.

Uma Tempestade de Emoções…

O Lobo Solitário, é um filme passado apenas dentro de um estúdio de rádio, neste caso da rádio local Viva FM, em que o tema se foca nas emoções e sentimentos, que cuidadosamente é pensado, estruturado e abordado como tema principal do programa de rádio a assistir, Lobo Solitário, em que o radialista Vitor Lobo apenas está a fazer o seu trabalho conversando com os seus ouvintes.

Nestes pequenos pormenores destaca-se toda a premissa que Filipe Melo quis passar com este filme, pois a câmara não “larga” a figura central Vítor, e quando o faz é porque há algo com elevada importância a acontecer em simultâneo. Falando do trabalho de câmara, deve-se destacar toda a direção que esta teve, pois a sequência de O Lobo Solitário simula algo como sendo uma filmagem one-shot, técnica que não é fácil de trabalhar, não só para as câmaras como para os atores, no entanto é extremamente bem executado, fazendo um shot lindíssimo, mágico e soberbo. Além disto, a forma como esta vai rodeando a personagem Vítor de como uma presa se tratasse, é algo que está inerente quer à premissa quer à narrativa que nos é apresentada, pois assim que o seu velho amigo “entra em cena” é como se Vítor fosse capturado, ficando nesse momento a câmara estática e dependendo do rumo da conversa ela volta a rondá-lo ou captura-o numa “dentada”.

Já a nível de sonoplastia e sonografia, o trabalho é exímio, talvez pela experiência do realizador como músico, que o permitiu saber exatamente o que queria passar em determinados momentos, pois os momentos em que o silêncio total toma conta da tela, ou os em que a música ambiente se torna exageradamente (pela positiva) tensa, são escolhidos ao pormenor, algo que enaltece esta obra, e faz qualquer espectador ficar preso ao ecrã durante 23 minutos aproximadamente.

Sendo as emoções o tema abordado, a forma como O Lobo Solitário começa, tem um impacto peculiar ao longo do filme, pois inicialmente vemos Vítor com todo o controlo de uma situação que ele conhece, a sua estação de rádio, o seu programa, o seu público, que são todos os seus fiéis ouvintes de quem ele sabe o nome de cada um deles, e quando aborda o tema a que se propõe (as emoções), a primeira pergunta que faz à primeira participante é intrigante, pois tal como mencionado anteriormente, ele pergunta “Que emoção é que consegue controlar?”, e apesar de ele divagar muito na resposta e parecer que Vítor perde o controlo do momento, assim que tem um abertura fecha rapidamente a conversa com esta ouvinte. E este é o momento intrigante e interessante, pois no momento que recebe a chamada de Raúl, com o avançar da conversa ele perde todo o controlo não só da situação, como das suas próprias emoções, quase sendo um contrassenso à sua própria pergunta, mas não apenas isto, pois com o decorrer da narrativa esse descontrolo das emoções passam para o espectador e no final desta curta-metragem, ficamos quase que “sem chão” e sem perceber bem o que estamos a sentir. E esta é a beleza de O Lobo Solitário, que com um tema simples e uma abordagem magnífica deixa qualquer espectador sem controlo das emoções, que ele possa achar que controla, dentro de uma situação que conhece.

Após Vítor receber a chamada de um velho amigo, Raul, que quer pôr a conversa em dia, inicia-se um turbilhão de emoções e conflitos emocionais de forma crescente, que quebram de tal forma Vítor, que a personagem tem apenas uma forma de a apresentar ao espectador e é pelas suas expressões faciais, sendo aqui o principal destaque para o ator Adriano Luz, onde apresenta uma interpretação exímia, que com um simples olhar e micro expressões consegue transmitir os conflitos internos da personagem principal, até num momento crítico em que se esquece do nome de um ouvinte. A nível de interpretações, O Lobo Solitário é bastante sólido, com principal destaque para Adriano Luz, já António Fonseca, ator por detrás da voz de Raúl, apenas se nota umas ligeiras inconsistências a nível de voz do antagonista, contudo assim que agarra a personagem, torna a sua interpretação excelente.

Em suma, O Lobo Solitário ou The Lone Wolf é uma curta-metragem intensa a nível de sensações, que possui um elenco forte que adiciona esforço e energia às cenas dramáticas. Apesar de existir uma pequena instabilidade da voz do antagonista nos momentos iniciais, não é nada que estrague a experiência e a performance do ator. Contudo, esta curta-metragem é uma trabalho bastante interessante, com uma crítica social e mensagens subliminares, especialmente para as gerações atuais, pois após a primeira interação entre Vítor e Raúl, existiu de imediato um “motim” online, na emissão em direto na internet que a rádio Viva FM estava a fazer, demonstrando muito bem os comportamentos da sociedade atual, que julga tudo e todos no primeiro segundo, sendo quase um paralelismo com uma metáfora muito usada, “disparasse primeiro, perguntasse depois” sem sequer pensarmos nas repercussões desses atos, sendo algo que nos deixa a refletir o poder que uma acusação em público pode fazer e os impactos inerentes à mesma.

Partilhamos, convosco o trailer da curta-metragem portuguesa com possibilidade de nomeação aos Óscares 2023 O Lobo Solitário

9.0
Score

Pros

  • Premissa interessante
  • Direção de Filipe Melo
  • Interpretação de Adriano Luz soberba
  • Sonografia exímio, com nível extremo
  • Cinematografia magnífica
  • Tema abordado, juntamente com evolução da narrativa são pensados ao detalhe
  • Crítica social

Cons

  • Pequenas inconsistências (mas nada que estrague a experiência) na voz dos participantes do programa de rádio

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