Análises, TV

Resident Evil – Season 1 (Netflix) – Análise

A Netflix trouxe recentemente uma nova série, desta vez dentro da franquia de Resident Evil, desenvolvida por Andrew Dabb (escritor americano que trabalha na área de televisão, filmes e novelas gráficas, mais conhecido pelos seus trabalhos na série Supernatural). Resident Evil, é baseada no Universo dos famosos jogos com o mesmo nome da Capcom, fazendo algumas pequenas homenagens ao longo da mesma. Esta é a segunda adaptação para a televisão, após a minissérie animada Infinite Darkness, e é a terceira adaptação live-action após a série de filmes de mesmo nome e mais recentemente o reboot, Resident Evil: Welcome to Raccoon City.

Esta série apresenta um elenco liderado por Ella Balinska (atriz inglesa mais conhecida pela sua participação no Renoir do filme Charlie’s Angels), Adeline Rudolph (atriz nascida em Hong Kong-born com ascendência alemã e coreana, sendo até à data os seus trabalhos mais relevantes nas séries da Netflix: Chilling Adventures of Sabrina e The CW’s Riverdale), Lance Reddick (ator e músico americano mais conhecido pelas suas interpretações nas séries The Wire e Fringe), Tamara Smart (jovem atriz inglesa que fez a sua estreia no mundo da televisão na série The Worst Witch. Também participou na série Are You Afraid of the Dark? e nos filmes Artemis Fowl e A Babysitter’s Guide to Monster Hunting), Siena Agudong (jovem atriz americana conhecida pelos seus papéis nas séries Star Falls e No Good Nick, e nos filmes Alex & Me e Upside-Down Magic), Paola Núñez (atriz e produtora mexicana, tendo ficado conhecida pelos seus trabalhos em novelas e séries, sendo o seu papel de “Barbara Bazterrica” na novela Amor en Custodia que a lançou para o estrelato), entre outros.

Umbrella e a New Raccoon City

A série situa-se no ano de 2036, conta-nos os acontecimentos entre 2022 (início de toda a trama) e 2036 (presente da narrativa apresentada), mostrando a estória de como o famoso T-Virus iniciou e como este se propagou.

Em 2036 vemos Jade (Ella Balinska) em Londres a fazer uma investigação ao Pack #2426, um pequeno grupo de humanos mutantes (ou zombies) conhecidos como “zeros”, este é nome dado por Jade, aos primeiros seres “transformados” pelo T-Virus sem que este se tenha mutado (basicamente seres que se mantiveram na fase inicial do vírus). No entanto, após um percalço ela é perseguida pelo grupo, obrigando-a a eliminá-lo e assim destruindo toda a sua pesquisa, pois Jade analisa metodicamente o grupo de forma a perceber quando o corpo inicia algum tipo de regressão do vírus e assim utilizar esse espécime para tentar desenvolver uma cura mundial.

Nesse momento, Jade lembra-se de alguns acontecimentos do passado, sendo assim o espectador transportado para 2022, onde um cientista famoso, chamado Al (Lance Reddick), com as suas duas filhas gémeas, Jade (adolescente interpretada por Tamara Smart) e Billie (Siena Agudong), chegam à New Raccoon City, uma comunidade situada na África do Sul, onde em que Al foi destacado para um trabalho vital nas novas instalações da Umbrella Corporation.

Com esta mudança atribulada e especialmente contra os desejos das suas filhas, Billie acaba por ser a que mais sofre, pois é demasiado afável e rapidamente se tenta relacionar com toda gente, mas sendo as recém-chegadas à comunidade, os outros miúdos não olham com boa cara para as irmãs, aproveitando-se assim da boa vontade e inocência de Billie para infernizarem a vida desta.

Após esta pequena memória (sendo que a série vai saltitando entre momentos do passado e presente), regressamos ao presente em Jade adulta é perseguida intensamente pelas forças da Umbrella Coporation. Entre fugas, a protagonista vai conhecendo diversas comunidade de humanos no meio deste mundo apocalíptico que se aproveitam de tudo, incluindo dos próprios mutantes (apesar de estarem infetados com o T-Virus esta transformação é afirmada pela série como uma mutação e não como uma transformação em zombies) para sobreviverem, conhecendo assim Jade a comunidade que acreditam que todo este apocalipse é a “Vontade de Deus” que caiu sobre a Terra, denominando-se Brotherhood (A Irmandade), e eles são devotados sobre esta “vontade”. No entanto, é neste momento que Jade perceber que o T-Virus já possa ter evoluído para algo mais “humano”, pois essa comunidade mantinha os mutantes/zombies presos a trabalhar sobre as ordens de uma líder.

No meio de todas estas cenas de ação, voltamos ao passado, em que as jovens Jade e Billie, cada vez mais desconfiam do trabalho do pai, principalmente depois de Jade ouvir falar de um rumor sobre a antiga Raccoon City e o que lá se passou, tentando assim entrar em contacto com uma fonte muito próxima ao sucedido, um jornalista chamado Angel (Pedro De Tavira).

Com as curiosidades das jovens cada vez a aumentarem, a cada dia que passa descobrem que a Umbrella Corp. é muito mais do que aquilo que aparenta, além de as gémeas se envolverem e ficarem perdidas no meio de todos os mistérios em volta da New Raccoon City, assim como as experiências que Umbrella Corp. possa estar a fazer e Al cada vez mais impotente na forma como poderá controlar as suas filhas, para que não destruam o seu trabalho ou que não sejam afetadas por algo perigoso.

Já no presente, Jade curiosa que é (tal como nos é apresentada no passado) não consegue deixar de pensar naquela líder de mutantes/zombies, e em como poderá a utilizar de forma a curar e a salvar toda a humidade, por algo que em parte se culpa, não só a si, mas como a toda a sua família por todo este apocalipse.

Estes são os momentos críticos vividos pela série, no passado serão as irmãs capazes de desvendar todos os mistérios que estão envolvidas e se salvarem de todos os perigos que as atormentam…E no futuro, Jade conseguirá fazer frente à Umbrella, e aos líderes desta organização que a seguem intensamente, sendo que ao mesmo tempo está a tentar salvar todo o mundo…

Terror? Resident Evil? mas pouco…

A estória principal da série está distribuída entre 2022 e 2036 (algo que é montado muito à semelhança de outras séries/estórias, como é o caso da série Arrow, em que o presente faz o gancho e a ligação para o passado que é despertado), sendo que a trama do “passado” mostra as lutas das gémeas de 14 anos Billie e Jade, filhas do Dr. Al, que foram concebidas através de circunstâncias misteriosas. As suas vidas tomam um rumo dramático quando Al é promovido pela Umbrella Corporation, tendo-se de mudar para a comunidade de New Raccoon City. No entanto, as duas jovens tropeçam nos segredos sombrios por trás das suas origens e do legado sombrio da Umbrella, enquanto o seu pai tenta coordenar uma resposta ao surto de um possível novo vírus, o T-virus. Em 2036 ficamos a saber que este vírus se espalhou e que a Umbrella controla praticamente todo o Mundo, porém existem comunidades resistentes/rebeldes que tentam investigar e tentar achar uma cura para a humanidade contra a vontade da Umbrella.

A franquia de jogos de Resident Evil teoricamente não é uma estória difícil de adaptar, porém, é impressionante a frequência que esta fórmula foi passada para a grande e pequena tela sem grande sucesso. No entanto, a mais nova série da Netflix, Resident Evil, pode ser uma das piores tentativas de adaptação, pois apenas no nome e em alguma referência e ou homenagens é que Resident Evil tem algo em comum com a famosa estória da franquia.

Essencialmente a série da Netflix é um drama distópico adolescente, dividido em duas linhas temporais distintas, sendo apresentadas uma enorme quantidade de personagens unidimensionais e uma estória que começa de forma mediana antes de sair do controlo, sendo que esta se torna cada vez mais improvável à medida que os episódios avançam. Além disso, os episódios estão cheios de artifícios, ações estúpidas de personagens e acima de tudo possuem uma clara falta de lógica.

A trama está repleta de clichês de dramas adolescentes, especialmente quando nos é mostrado os eventos de 2022. À medida que o enredo se desenvolve, verificamos a distância dos mitos e da tradição da série de jogos. Além disso, a narrativa não realiza bem as ligações temporais e possui ritmos inadequados, deixando sempre o espectador com a sensação que tinha tudo para ser melhor, mas não foi (na verdade apesar do arranque atribulado, a série passar para um “descontrolo” da narrativa, consegue pelo meio conceber um ou outro episódio interessante, mas estes só surgem quando um dos tempos é o foco total do episódio).
As duas linhas do tempo não funcionam e nenhuma realmente complementa a outra. Nenhuma das estórias é particularmente interessante, principalmente a que ocorre em 2036, que é repleta por acontecimentos irreais (muitas vezes sem justificação plausível) de forma a salvar as personagens principais dos perigos existentes. A maioria das personagens foram mal desenvolvidas, há uma abundância de artifícios para tirar os mesmos de situações complicadas, e para piorar as coisas, a construção do Mundo não é a mais apropriada.

Quanto às interpretações estas também não foram brilhantes, porém o núcleo de 2022 conseguiu ter mais algum destaque comparativamente ao de 2036, provavelmente devido como o enredo foi construído e à interpretação de Lance Reddick (que apesar de tudo, tenta carregar um peso “morto” durante toda a série). A nível técnico, tal como referido anteriormente, a montagem/edição poderia ser melhor estruturada, o CGI também poderia ser melhor, porém os close-ups realizados em certos momentos (principalmente quando surgem criaturas novas) fazem lembrar o ambiente obscuro dos jogos (de certa forma uma espécie de homenagem), o que é algo de positivo. Além do mais a banda sonora e os efeitos de som são interessantes, sendo por vezes os únicos pontos altos de alguns episódios.

A franquia Resident Evil existe há mais de 25 anos, lançada como um jogo de terror nos meados dos anos 90 que aterrorizava os jogadores com os seus monstros grotescos e Mundo assombroso. Desde então, foi adaptado em dezenas de spinoffs, séries de TV e filmes. A Netflix tentou reinventar a estória clássica de zombies de Resident Evil, mas sem grande sucesso, infundindo sua visão dos mortos-vivos com várias linhas do tempo, drama adolescente e uma empresa farmacêutica de ficção científica empenhada em dominar o Mundo.

Os fãs de Resident Evil sem dúvida reconhecerão algumas personagens, e farão diversas ligações à franquia original, contudo, a série reinventa alguns deles (o que dentro dos padrões e estória da série, consegue estar bem-adaptado). Contudo, é possível afirmar que para alguns, ou mais concretamente alguns dos quais que nunca tenham jogado ou que não tenham conhecimento da franquia de Resident Evil, possam achar uma série com um conceito interessante, mas tal como referido anteriormente, esta série apenas tem o nome e algumas referências da franquia Resident Evil, pois poderia perfeitamente estar inserida num outro mundo, ou até mesmo num mundo original.

Em suma, Resident Evil: The Serie, sob qualquer outro nome, esta série poderia ter sido um drama de terror adolescente aceitável, mas mediano. Já que a nível técnico apenas sonografia e banda sonora são os mais interessantes, o CGI consegue trabalhar bem em determinados momentos, principalmente quando usado os close-ups, infelizmente, a nível de interpretação apenas Lance Reddick consegue entregar bem o seu papel, porém os momentos de Reddick estão confinados a um enredo em Resident Evil, que muda (quase constantemente) entre os dias em New Raccoon City e o Mundo atual de 2036, onde um vírus devastou o Mundo, apenas estes pontos em conjunto nos fazem reviver um pouco das emoções do jogos.
Por fim, esta série ao tentar desenvolver-se em torno do nome Resident Evil e não fazendo nada para honrar o material de origem, torna esta série em mais uma adaptação mal sucedida e tão sem vida quanto “os zeros”.

Partilhamos, convosco o trailer da série Resident Evil da Netflix

https://www.youtube.com/watch?v=uIdjcDTc9Vk

5.0
Score

Pros

  • Premissa com tanto para dar
  • Interpretação de Lance Reddick
  • Banda sonora e sonografia
  • CGI brilha quando usado nos closed-ups

Cons

  • Narrativa deriva na sua própria confusão
  • Montagem e edição dos episódios (transição entre passado e presente) de forma geral mal construída
  • Interpretações do elenco
  • Má adaptação do material original
  • Tenta apenas viver de referências e homenagens

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