Nope é um filme de terror e de ficção científica de 2022 escrito, dirigido e co-produzido por Jordan Peele (ator, comediante e cineasta americano mais conhecido por seu trabalho no cinema e na televisão nos gêneros de comédia e terror, sendo alguns dos seus trabalhos mais renomados Get Out e Us) e trazido às salas de cinema pela produtora da qual ele é fundador Monkeypaw Productions.

É estrelado por Daniel Kaluuya (ator britânico galardoado com o Oscar de melhor ator secundário no filme Judas and the Black Black Messiah e tendo sido nomeado como melhor ator pela sua interpretação em Get Out. Também esteve envolvido noutras produções tais como: Kick-Ass 2, Black Panther, Widows, etc.), Keke Palmer (atriz e cantora americana que participou em Barbershop 2: Back in Business, Akeelah and the Bee, Madea’s Family Reunion, Jump In!, The Longshots, Shrink, Hustlers, entre outros), Steven Yeun (ator americano, que recebeu uma nomeação para um Oscar como melhor ator pelo seu papel em Minari, também participou em My Name Is Jerry, Okja, Mayhem, Burning, entre outros, sendo o trabalho que o lançou para a luz da ribalta o seu papel em The Walking Dead), Michael Wincott (ator canadense mais conhecido por interpretar vilões na pequena e grande tela, tendo participado nos filmes Robin Hood: Prince of Thieves, The Crow, Strange Days, Alien: Resurrection, Ghost in the Shell, etc.), Brandon Perea (jovem ator americano que já participou nos filmes Dance Camp e American Insurrection), entre outros.

Haywood’s Hollywood Horses

O filme inicia de imediato com um momento bastante tenso, num estúdio duma sitcom americana. Apesar deste momento angustiante, rapidamente avançamos para o rancho Haywood’s Hollywood Horses onde todos os eventos de Nope se vão desenvolver, sendo-nos apresentado as personagens OJ (Daniel Kaluuya) e o seu pai Otis Haywood (Keith David), que trabalham nos seus terrenos com cavalos que são utilizados em gravações publicitárias (ou comerciais) de produtos americanos.

No entanto, é num momento calmo neste local que um infeliz e bizarro incidente surge, que fere Otis mortalmente assim como alguns cavalos. A comunicação social atribui este ocorrido a destroços caídos do céu dum avião que passou naquele instante.

Após este incidente OJ, juntamente com a sua irmã Emerald (Keke Palmer), tentam manter o trabalho no meio das gravações publicitárias com os seus cavalos. Mas, infelizmente, o negócio cai de dia para dia, pois OJ não tem a mesma capacidade de gestão de Otis nem o carisma de Emerald, fazendo com que o jovem procure um novo negócio para pagar todas as dívidas que a família Haywood tem.

Então, para fazer face às despesas, eles começam a tentar vender os seus cavalos para um jovem empresário local, Ricky “Jupe” Park (Steven Yeun), um ex-astro infantil que possui um parque temático dedicado ao faroeste. Jupe tem bastante interesse pelo meio audiovisual, tudo devido ao incidente passado há anos atrás no estúdio da sitcom, que o mesmo conta com alguma mágoa, mas ao mesmo tempo com o sentimento que o “show must go on” (o espetáculo deve continuar).

Apesar da longa-metragem seguir um rumo calmo e sereno, é no momento que OJ e Emerald regressam ao rancho que tudo começa a mudar, pois mais situações estranhas, idênticas às vividas inicialmente por OJ e o seu pai, voltam a surgir, porém, algo mais focado e relacionado com os cavalos, pois estes começam a enlouquecer rapidamente e até mesmo desaparecer do rancho sem deixar qualquer rasto.

OJ mesmo não tendo as característica do pai e/ou da sua irmã, é bastante perspicaz e atento a tudo e repara que algo atravessa os céus rapidamente durante estes eventos. Percebendo assim, que algo se esconde nos céus, e em pouco tempo deteta uma nuvem imóvel no céu, afirmando que lá se esconde o mistério por detrás de todos estes recém acontecimentos no seu rancho.

A carismática Emerald vê nisto uma oportunidade para reabilitar o seu rancho, pois idealizada a captura por vídeo do que se esconde nos céus, apesar de não saber o que é ou mesmo que não capture nada, permite-lhe criar toda uma estória e isto é algo bastante rentável na América, podendo tornar Haywood’s Hollywood Horses bastante famoso, fazendo com que os irmãos fiquem determinados em fazer um filme ou capturar imagens que lhes poderão dar fama e fortuna.

Contudo, esta tarefa revela-se mais complexa do que os dois irmãos esperavam, pois os seus cavalos continuam a desaparecer. OJ desconfia que Jude o possa estar a atacar o seu rancho para que este consiga aumentar os lucros do seu “parque temático” e ficar com todos os louros. Assim sendo, os irmãos decidem abordar um jovem técnico de eletrónica que os possa ajudar com câmaras e aliciam um conceituado diretor de comerciais, Antlers Holst (Michael Wincott), para que este os possa fazer famosos. Mas, será que serão capazes de formar uma equipa com a capacidade de desenvolver uma estória única e deslumbrante que leve os irmãos até às luzes da ribalta, ou até mesmo capturar a imagem tão desejada que os permita desvendar o mistério que sobrevoa o seu rancho?

O Terror que vive nos Céus…

Nope, é uma longa-metragem que nos conta a estória simples de dois irmãos que tentam capturar evidências de algo que eles acreditam sobrevoar os céus, que possa estar associado ao comportamento estranho dos seus cavalos, assim como ao desaparecimento de alguns deles. Com base nestes eventos insólitos eles criam uma estória e tentam capturar provas da mesma de forma a tornar-se famosos e elevar o bom nome do rancho. Contudo, Nope talvez possa não corresponder às expectativas de muitos fãs dos filmes passados de Peele (podendo apreciar mais obras como Get Out ou Us), que combinaram o horror com a crítica social duma forma que não se tinha visto antes.

No entanto, Jordan Peele acaba por arriscar um pouco neste tipo de narrativa, já que quis uma abordagem um pouco diferente na sua forma de contar estórias. Não se pode retirar o mérito de Nope, pois é um bom filme, porém talvez seja uma obra mais facilmente chegada ao público, já que não tem a exposição, o incómodo e o desconforto de outras produções deste realizador, apresentando-nos aqui algo mais linear e de fácil interpretação. Destaca-se as diversas homenagens aos filmes de ficção científica da “velha guarda” (Spielberg, Tarantino, ou até mesmo mais recentemente Villeneuve, entre outros), assim como à própria indústria de cinema de Hollywood.

Nope a nível técnico apresenta-nos um trabalho exímio, com uma cinematografia, cenários, montagem, trabalho de som e sonografia brilhantes, remetendo facilmente o espectador para os típicos filmes dos anos 50. Contudo, a narrativa por vezes possui um ritmo inapropriado (sendo bastante desequilibrado), tirando o esplendor de alguns momentos da longa-metragem.

Destaca-se ainda todas as metáforas e conexões entre todas as personagens, sendo possível estas se reverem umas nas outras, além de nos demonstrar que todo um grupo “deslocado” e com personalidades bastantes diferentes, funcionem bem. Tudo isto pode-se observar na ligação entre a experiência traumática de Jupe e o conhecimento de OJ sobre animais, e este pormenores enaltecem a experiência e fazem com que o filme se pareça com ficção científica dos anos 50, pois é formado um grupo estranhamente combinado lutando pela sobrevivência contra forças estranhas (algo muito semelhante ao que vemos em animações como Scooby-Doo).

A nível de interpretações, estas são muito voláteis, ficando um pouco aquém do esperado, especialmente a prestação de Kaluuya, que apenas fica mais consistente após a primeira parte do filme (contudo, a interpretação melhora quanto mais confortável esta personagem fica em relação ao que está a vivenciar). Mas, quando Kaluuya e Palmer estão juntos em cena, conseguem brilhar, pois ela é ardente, cheia de energia, enquanto ele é quieto e observador, sendo este contraste bastante eficiente na tela. Porém, Brandon Perea, que foi inserido para realizar os alívios cómicos de Nope, por vezes falha a nível de timing dos mesmos (provavelmente devido ao próprio script), a atuação de Wincott está atolada em clichês (porém apresenta o melhor desempenho de todo o elenco) e Yeun não teve tempo nem espaço para ser uma personagem relevante quanto o esperado.

Em suma, de forma similar aos trabalhos anteriores de Peele, Nope apresenta também alguns aspetos de crítica social inerentes à premissa, pois tem uma pitada de folclore e personificação relativa a Hollywood, aos mitos do show business e aos OVNIs. Algumas destas metáforas são apresentadas em flashbacks ou relatadas em estilo de anedotas hipnotizantes, sóbrias e seriamente detalhadas. Durante a longa-metragem são prestadas diversas homenagens de forma adequada enriquecendo o trabalho de som e imagem, pois há cenas que parecem um quadro e em simultâneo o som faz com que tenhamos a sensação que um evento relevante irá ocorrer. Porém, a narrativa não é por vezes coerente a nível de ritmo, os diálogos de alguns personagens parecem muito clichês, assim como as interpretações que estão aquém do esperado. Em Nope nem tudo faz sentido, nem todos os comportamentos das personagens são lógicos ou psicologicamente defensáveis, mas no fundo este filme é uma experiência bastante interessante, principalmente suportada pelo conceito que “roça” a genialidade, mas ao mesmo tempo estranha (algo inerente às produções de Peele) e quiçá bonita, para quem aprecia este género de trabalhos.

Partilhamos, convosco o trailer deste filme de terror e muito característico de Joran Peele

7.0
Score

Pros

  • Conceito a "roçar" a genialidade
  • Premissa interessante
  • Nível técnico soberbo (cenários, cinematografia, trabalho de som e imagem)
  • As ligações entre personagens (seja por metáforas e/ou nas "entre-linhas") funcionam bastante bem
  • Inúmeras referências e homenagens quer ao folclore, quer à indústria do cinema de Hollywood

Cons

  • Interpretação do elenco aquém do esperado
  • Ritmo da narrativa desequilibrado
  • Personagens por vezes mal aproveitadas
  • Estória bastante linear para o que Peele já nos apresentou (pode não corresponder às expectativas de alguns fãs)

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