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Cobra Kai – Season 3 (Netflix) – Análise

Tendo este ano de 2022 iniciado com a mais recente temporada de Cobra Kai, e para quem não viu ainda as anteriores, a CaixaNerd tem trazido a análise da série (Análise da primeira e segunda temporada, podem ver aqui: Cobra Kai Season 1 e Cobra Season 2), e por esse motivo apresentamos aqui uma revisão da terceira temporada duma das séries mais nostálgicas de sempre.

Atenção, sendo uma análise da terceira temporada existem pontos que serão abordados e que poderão ser um Spoiler para quem não viu a primeira e/ou segunda temporada.

Cobra Kai é uma série de drama e ação com base em artes marciais, desenvolvida por Josh Heald, Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg, que segue a estória 3 décadas após da trilogia original The Karate Kid (sendo que nesta 3ª temporada a nostalgia aumenta de forma exponencial). Depois de duas temporadas produzidas/transmitidas pelo YouTube Premium e depois várias negociações, Cobra Kai passou a ser produzida e exibida pelo canal de streaming Netflix. Esta temporada também é constituída por 10 episódios, com cerca de 30 minutos cada um e mantém praticamente o mesmo elenco: William Zabka, Ralph Macchio, Xolo Maridueña, Tanner Buchanan, Mary Mouse, Martin Kove, entre outros.

Nesta temporada da série, continuamos a ver a mistura e a combinação da ideologia de 2 rivais. No entanto, depois do desfecho da temporada anterior, onde o karaté e o bullying escalaram a outro nível, todos os envolvidos ficaram num “estado pior do que antes”. Miguel acaba por ser hospitalizado, Sam fica completamente traumatizada após o confronto com Tory, Robby acaba por se sentir traído por todos e está fugido, Daniel sente que não é um bom sensei e que o Miyagi-Do Karate está a estragar a vida dos seus alunos, Lawrence perde o apoio dos seus alunos e consequentemente o dojo.

O Bom, o Mau e o Vilão…

Após o drástico evento na escola de All-Valley, todos responsabilizam Johnny (William Zabka) pelo sucedido, incluindo o próprio, assim quando tenta regressar ao seu dojo é expulso pelos seus alunos, que agora estão ao “comando” do sensei Kreese (Martin Kove), que os motiva mostrando-lhes que o desfecho do combate ocorrido na escola só se deu, porque são fracos e tem uma mentalidade recheada de piedade e que nunca conseguiram chegar mais longe, envenenado assim as mentes destes jovens.

Johnny sentindo-se abandonado e agora sem apoio do seu principal companheiro nesta jornada, Miguel (Xolo Maridueña) que saiu desse combate hospitalizado, cai nas tentações e vícios do passado. Contudo, Daniel LaRusso (Ralph Macchio) decide ir ao encontro de Johnny para que este o ajude na busca por Robby (Tanner Buchanan), pois poderá perceber melhor a reação e a mente deste miúdo, já que pode ser a figura necessária para desbloquear um pouco a tensão vivida por Robby, apresentando-se ambos como duas figuras paternas para Robby Keene. Assim, os dois senseis decidem seguir juntos quase com um “Tango e Cash” na investigação pelo jovem, mas como é de esperar as divergências entre os dois são superiores a qualquer interesse em comum, e acabam por falhar a missão e cada um acaba por seguir o seu próprio caminho.

No meio de toda esta confusão, Amanda (Courtney Henggeler) pressiona ainda mais Daniel para que este desista do dojo, principalmente pelo estado emocional que deixou a filha de ambos, Samantha (Mary Mouse), mas também pela dificuldade financeira que a sua empresa, LaRusso Auto está a passar devido ao seu afastamento dos negócios, dando prioridade ao karaté.

Assim sendo, apenas existe uma solução, na altura mais crítica da família LaRusso, Daniel tem de se “afastar” desta e abandonar o dojo, para se focar nos negócios, algo que o leva a uma viagem de urgência ao Japão, deixando a sua família vulnerável a um novo ataque. Já Sam, traumatizada com a situação passada com Tory (Peyton List), e incomodada pela posição da mãe, decide pelas próprias mãos iniciar um treino mais intensivo com os restantes membros do Miyagi-Do Karate, sendo que Demitri (Gianni DeCenzo), o nerd, quer melhorar as suas habilidades de combate, de forma a superar o seu rival Hawk (Jacob Bertrand).

Sem a proteção de Daniel por perto, os Miyagi são um alvo fácil para os Cobra Kai (liderados agora por Kreese), que mantêm uma postura extremamente mais rígida e sem piedade. Com o passar do tempo, Kreese tem como objetivo melhorar do seu dojo, dando novo sangue a este e eliminando aqueles que não têm “estofo” para serem “Cobras”, assim sendo, aposta as suas fichas nos bullies naturais existentes em All-Valley, como por exemplo Kyler (Joe Seo) ou Brucks (Bo Mitchell).

No meio desta caça de “gato/cobra ao rato”, é quando todas as estórias do passado ressurgem, de uma forma nostálgica. Primeiramente, temos Daniel, que na sua viagem ao Japão, decide passar por Okinawa para tentar recriar a ligação às origens do seu karaté e por consequente ao sensei Miyagi. Assim, consegue compreender que as lutas importantes têm consequências, dor e trauma, no entanto, é possível superar e dar a volta por cima, tornando-se assim um melhor ser humano (a “sabedoria de Miyagi” tal como em The Karate Kid II), mas não é apenas isso, pois os amigos e os fantasmas do passado também surgem nesta viagem de Daniel.

Em paralelo, vemos todo o desenvolvimento de Johnny com o seu pequeno prodígio Miguel, que tenta ajudar este a recuperar do sucedido, não só fisicamente, mas também mentalmente. Para isso, e mantendo-se Lawrence tal como o conhecemos, extremamente empenhado com recurso a métodos pouco ortodoxos (como é o caso de pegar fogo a Miguel). Além disto, Johnny quer acabar com a sua ligação ao Cobra Kai e para tal, decide tentar recrutar os seus antigos alunos e mostrar-lhes que o Cobra Kai de Kreese não é o caminho a seguir.

Já do outro lado, também seguimos atentamente o crescer dos Cobra, e principalmente como Cobra Kai foi originado, para isso temos um regresso ao passado na estória de vida de Kreese, em que nos é revelado que o próprio teve muito que lutar para conseguir sobreviver no Mundo cruel em que estava. Passando por bullyings que lhe faziam a vida negra e até mesmo a guerra, que deixou marcas profundas na sua personalidade, algo das quais nunca conseguiu libertar-se. Assim, Kreese, como uma Cobra Rei, rasteja por entre os inimigos sem que estes se apercebem que está presente, e no momento que chega perto dos seus corações ataca. Neste caso, Kreese consegue encontrar Robby e oferece-lhe ajuda para atravessar o momento em que está.

No meio de todas estas situações, Kreese e o dojo Cobra Kai cada vez mais reforçam as suas “tropas” com mentes envenenadas, prontas para atacar. Lawrence e Miguel tentam recriar o dojo, de forma a terem sempre as suas presas prontas para contra atacar. Daniel, mesmo estando no Japão, não quer deixar os alunos abandonados e tenta que estes se adaptem e aprendam novas técnicas para estarem prontos para o ataque inimigo e se defenderem. Contudo, o karate está banido em All-Valley, após o evento da escola, como seguirá o caminho destes jovens? Haverá uma forma segura para que estes confrontos existam? Mas, acima de tudo, como todos vão ultrapassar e recuperar de todos os traumas?

A Cobra Rei…

A terceira temporada de Cobra Kai, segue a mesma linha que as temporadas anteriores, mantendo-se extremamente divertida (apesar de esta entrar em temas um pouco mais sombrios) e rápida de se ver, pois são apenas 10 episódios, com cerca de 30 minutos cada um. Podemos ainda, verificar que os episódios desta temporada adicionam camadas à “mitologia” de The Karate Kid, exibindo os desafios enfrentados pelas personagens originais Johnny Lawrence e Daniel LaRusso, expandindo-se para abranger os adolescentes da próxima geração que lutam também com os seus próprios problemas.

A arma secreta para esta brilhante série dramática é o seu ritmo, esse é certamente o caso dos primeiros episódios, que lutam para igualar a energia da primeira temporada e torna-se revelador que a série, principalmente com esta temporada, expandiu a sua quantidade de perspetivas. Ao longo do caminho, Cobra Kai subverte as expectativas e continua a “baralhar as alianças”, terminando cada episódio com um agradável suspense. Ainda assim, a receita da série continua a ser a mesma, de elevar o papel de Johnny de vilão para protagonista, graças à escrita hábil, mesmo nos momentos exagerados, que normalmente são divertidos.

Contudo, em termos de narrativa, corrige alguns problemas apontados nas temporadas anteriores (como é o caso de gerar conflitos um pouco aleatórios), mas gera outros (apesar de serem algo mais leviano), como por exemplo o foco da estória vai-se perdendo ao longo da temporada (o foco deixa de ser os miúdos e passa a ser o adultos), e a construção de algumas personagens perde um pouco de consistência (mas nada de muito crítico).

Robby, que inicia a série como uma personagem interessante, vai perdendo um pouco de “força”, principalmente nesta 3ª temporada (sendo que na reta final tem uma presença mais forte). Samantha ainda não ganhou o seu terreno em Cobra Kai, sendo uma personagem que não sabe bem o que quer. Miguel começa a perder importância, pois o suporte que teve, na temporada passada, de Tory acaba por não acontecer nesta (e não sendo substituído), já Tory é a personagem feminina que mais terreno tem ganho ao longo desta temporada, assim como Demitri que tem uma evolução notável. No caso de Hawk/Eli, não há palavras para descrever o desenvolvimento da personagem, mantendo a sua consistência como melhor personagem em Cobra Kai.

Os adultos continuam a dominar esta temporada, tendo cenas de combate mais suaves, contudo mais viscerais (abordando temas um pouco mais pesados do que em temporadas anteriores). Quanto às interpretações, destacam-se muito pela positiva Martin Kove, que dá uma vida brilhante ao sensei Kreese, tornando o verdadeiro vilão de Cobra Kai, William Zabka que mantém uma boa interpretação do sensei Lawrence, mostrando-se sempre com um ar rezingão e um pouco cansado (incluindo as suas lutas contínuas com as novas tecnologias) continua a ser uma fonte consistente de deleite, além do mais, a aproximação ao seu antigo rival Daniel, por vezes transforma-os instantaneamente num “casal estranho”, mas divertido. Peyton List e Jacob Bertrand mantêm uma boa performance sendo uns dos principais protagonistas/responsáveis por darem vida a Cobra Kai.

Relativamente às coreografias de luta, nesta temporada existe menos investimento nas mesmas a nível de quantidade, e talvez por isso levem a uma pequena perda de qualidade em relação principalmente à temporada anterior, contudo, a forma como as câmaras acompanham estas cenas, continua a ser uma excelente abordagem visual. Porém, na maior parte do tempo, Cobra Kai continua a exemplificar como as cenas de luta podem prender um espectador, com um estilo fluído, quer em luta quer a nível da narrativa (muito devido aos conflitos e choques entre personagens).

Em suma, Cobra Kai é um sucesso da cultura pop, não apenas porque todos conhecem e gostam de The Karate Kid, mas porque esta série encontrou um equilíbrio entre entretenimento nostálgico, fácil de assistir, e possui um bom enredo dramático. A nostalgia apresentada nesta temporada é abundante e executada de forma brilhante, algo que desperta ainda mais interesse em toda a narrativa, já que o principal foco é na Cobra Rei, o sensei John Kreese. Esta terceira temporada é comparativamente com as anteriores mais lenta, mas altamente recompensadora, o programa prova que o fan-service não precisa ser um conceito totalmente cínico, continuando a desafiar, inovar e a surpreender com o seu enredo. Contudo, peca um pouco nas coreografias de luta, que apresentam um nível um pouco abaixo da anterior. Por fim, destacam-se novamente as personagens Tory e Hawk, apresentando-se aqui com uma evolução bastante interessante e consistente, dando muita vida a Cobra Kai, tudo devido ao bom desempenho dos atores que os interpretam.

Partilhamos, convosco o trailer da 3ª temporada de Cobra Kai da Netflix

8.0
Score

Pros

  • Nostalgia referentes aos filmes originais
  • Fácil e rápida de ver
  • Hawk (Eli) e Tory mantém excelente consistência no seu desenvolvimento
  • Desenvolvimento de Demitri
  • Relação entre Daniel e Lawrence
  • Premissa continua interessante

Cons

  • Pequenas inconsistências na construção e desenvolvimento de algumas personagens
  • Narrativa perde o foco dos jovens, e volta a focar no adultos
  • Coreografias de luta perderam um pouco a qualidade

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